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segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Johnny Depp e a polêmica do separar o profissional do pessoal

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Texto escrito por mim e pelo autor de Nossa Trilha Sonora, J. Victor Araújo, que também atuou como revisor da postagem!

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Nessas últimas semanas, houve a divulgação do título do novo filme da série de filmes ambientados no universo de Harry Potter, “Animais Fantásticos: os crimes de Grindelwald”. Junto com a revelação do título, veio uma foto inédita com todo elenco do filme reunido. Foi a fagulha que atiçou não só a curiosidade dos fãs, mas também um grande alvoroço contra a participação de Johnny Depp na franquia.


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Creio que todos já têm alguma ideia do tamanho da polêmica que envolve Depp. Caso não tenham, vale a pena pontuar que ela é consequente da acusação de violência doméstica que está ligada a ele. Ela foi feita por Amber Heard, ex-esposa do ator, no ano passado; e existem vídeos, imagens e depoimentos que comprovam a agressão de Johnny Depp à Heard. Os principais comentários feitos sobre o caso, logo no início, eram feitos no intuito de defender o ator, com um discurso que apoiava a ideia de separar sua vida pessoal da vida profissional. Mas aí existe o seguinte questionamento: é certo fazer isso? Devemos mesmo ignorar a discussão que envolve o crime que ele cometeu?

E é claro que a resposta é não. O que ele fez não se resume a soltar algum comentário polêmico ou ser pego dirigindo alcoolizado, o que o senhor Depp fez foi algo muito grave, algo que envolve um assunto de alarde geral: ele cometeu abuso moral e físico com alguém a quem ele carregava um vínculo afetivo. Conseguem entender a gravidade da situação? Não? Então vou usar termos mais diretos: Johnny Depp espancou a própria esposa. E isso tem se tornado perigosamente comum na nossa sociedade, seja entre famosos do cinema ou entre os nossos vizinhos. A questão a ser tratada aqui é violência doméstica – e isso não pode ser ignorado, não mais, de forma alguma. Não é porque ele é um astro hollywoodiano que devem passar a mão na cabeça dele.

a.       “Não pode misturar a vida dele pessoal com a profissional, já que a pessoa individual não diz respeito a pessoa dele como artista”

Ele é uma pessoa pública e sobre isso, não há o que se discutir. De fato, Depp se mostra um artista reservado e pouco divulga detalhes sobre sua vida privada para a grande mídia. Contudo, a sua atitude repercutiu mundialmente no momento em que Amber o denunciou e explanou que talvez, apenas talvez ele não seguisse o perfil de galã amante que tanto se pinta sobre ele. Com a divulgação da notícia de violência doméstica que Heard sofreu, esse seu “outro lado” vem à tona e derruba a pose de ídolo que ele mantinha. O marido agressor, o abusador, é uma revelação da sua personalidade que se integrou à sua figura de artista. Passamos a conhecer a face pessoal, a face verdadeira de Johnny Depp; de galã exemplar, vimos que, na verdade, ele é um homem descontrolado e violento, que não se importa em agredir mulheres mesmo quando elas carregam o título de esposa.
E eis que Depp sempre foi um grande influenciador, dono de diversas frases de efeito concebidas em seus filmes e que costuma ser o grande foco de películas com grande alcance para o público adulto, e principalmente, infantil. A Fantástica Fábrica de Chocolate, a franquia de Piratas do Caribe, a duologia Alice no País das Maravilhas e, agora, a saga Animais Fantásticos são exemplos que, infelizmente, não nos deixam mentir sobre seu papel na mídia. Será este, contudo, o artista que deve ser apresentado a esse público? Seria ele, convenhamos, digno de ser exemplo? Será que ignorar toda essa carga negativa, apenas para “não misturar a vida privada da artística” não seria apenas um impulso para banalizar a violência doméstica? Fica aí o questionamento. 😉

b.      “Ah, mas ele é um bom ator, vai...”

Ele pode até ser bom em relação ao arquétipo de personagem ao qual ele sempre se apoia em seus filmes: aquele “carinha excêntrico”. Mas se qualquer pessoa, mesmo sem ser cinéfila, for a fundo em seus trabalhos, vai perceber que a maioria deles se baseia nessa única construção de personagem, nada além disso. Ser um bom ator é poder criar, moldar, adaptar e adotar novas personalidades durante o processo de encarnação dos personagens os quais você irá representar. E não é isso que ele faz.
Resumindo: Johnny Depp é bom no personagem que ele criou, mas não é um bom ator, não. Pesa menos se eu falar que isso é a minha opinião?
             Além disso, a atuação dele não interfere no nosso ponto principal, que é o fato de ele ser um agressor. Muito menos é desculpa para acobertar esses vacilos. Na verdade, isso nem é argumento para se pôr em pauta quando estamos falando sobre esse episódio de agressão (e voltamos pro argumento a. É, vai ficar nesse loop mesmo)
             Isso não quer dizer exatamente que você seja obrigado a odiar a todos os trabalhos dele, desgostar dos filmes ou que aquele personagem que ele fez naquele filme deixe de ser seu favorito. Longe disso. Até porque, como diz o ditado, “eu não sou obrigada a nada”. A questão nisso tudo é ter consciência de quem aquele é carinha FORA das telas. E vale repetir que assistir com consciência não é a mesma coisa de usar a atuação dele como pretexto para defendê-lo, quando até mesmo os empresários dele admitiram seu crime contra a esposa.

c.       “Se a J.K. aceitou ele...”


É bem provável que vocês queiram planejar uma tortura lenta e dolorosa depois que eu colocar essa carta na mesa mas, desculpa, é a verdade: J.K. Rowling não é referência de aceitação ou representatividade.
Vamos começar com o tópico agressão. Todo fã de Harry Potter que pesquisou sobre a vida da Rowling sabe do caso de violência doméstica que ela própria sofreu durante a primeira metade dos anos 1990. Ele já foi retratado dentro de um filme de 2011 produzido pela emissora de TV americana Lifetime, que não foi exibido nos cinemas, além de ser mencionado num livro que aborda toda a trajetória da saga Harry Potter até o lançamento do sétimo livro. Seria no mínimo óbvio, pela experiência a qual ela passou, que ela se posicionasse contra qualquer caso de agressão que tivesse conhecimento, certo? Então como ela admite estar “contente” em ter alguém com a procedência de Depp dentro da sua própria saga?
Buzzfeed: “E quando ela foi questionada sobre a controvérsia que rodeia a contratação de Depp, Rowling afirmou estar “contente” com a notícia.”

JK, em entrevista: “Estou contente. Ele tem feito coisas incríveis com aquele personagem.”

Decepção? Com toda a certeza. Uma pessoa que entende os perigos e os traumas da agressão doméstica não deveria, de acordo com os meus conceitos sobre ética e moral, promover quem cometa tal mediocridade a uma pessoa, quanto mais à própria esposa. Apoiar alguém desse naipe, dentro dessas circunstâncias, é um ato de hipocrisia que não esperamos vir de alguém que tem sido visto de maneira tão exemplar como Rowling.

Voltando ao ponto Depp, muita gente defende a J.K. nessa hora dizendo que ela não pode simplesmente descartar o cara do elenco num piscar de olhos. Assim, é óbvio que roteirista não tem poder de ficar selecionando elenco, mas a JK sabe negociar quando bem quer. Como o próprio livro que citei antes confirma, na época da negociação com a Warner para adaptar Harry Potter pras telas, ela só assinou o acordo que cedia os direitos autorais do livro depois de garantir que só atores britânicos pudessem fazer parte do elenco. Isso mostra que no mínimo ela tem algum poder de persuasão sobre eles.

E nem tem como ela usar a desculpa de não poder trocar ator no meio do filme porque, para o leve caso de alguém não lembrar, os atores de Dumbledore e Lilá Brown (que inclusive mudou de cor, né, curioso), fora o visual inteiro do professor Flitwick, mudaram drasticamente no meio dos filmes e ninguém soltou um pio. E eles apareceram bem mais que aquela merreca de trinta segundos os quais Depp apareceu, no fim do primeiro filme.

Todavia, ninguém pode apontar com clareza o quanto a Warner Bros., atual responsável pelos direitos da franquia de Animais Fantásticos, permitiu que J.K. Rowling se envolvesse nas escalações do elenco. Apesar do apoio inegável (tem até vídeo aqui, se a foto não foi prova suficiente), a gente não tem condição de alegar que ela é inteiramente responsável por manter Depp na saga. E, infelizmente, o mundo é capitalista. Qualquer decisão que empresas grandes como a Warner fazem é baseada mais em dinheiro que em opinião pública. E a verdade é que existe toda uma burocracia no ambiente cinematográfico que envolve desde contratos e assinaturas até alguns sigilos e “privações” que exigem toda uma fidelidade com o filme. Como explicou Ricardo, dono do canal Território Nerd no YouTube, tirar ele dos filmes talvez saísse mais caro do que mantê-lo na franquia, por conta de uma quebra de contrato pode gerar mais e mais processos contra a produtora; ou seja, seria um tiro no próprio pé. Não é como se o que aconteceu com Kevin Spacey pudesse ser repetido o tempo todo.

Nesse caso, resta aos fãs duas alternativas. A primeira é “aceitar” a derrota e a segunda é “boicotar” os filmes enquanto estiverem em cartaz (é uma opção, risinhos risinhos risinhos malvados).

d.      “Mas a menina retirou as queixas”

Bom, foi esse o acordo que ela e os advogados dele decidiram entre si. E provavelmente essa era a melhor solução, afinal, temos de admitir, preso ele não iria. Então entraram em um acordo para que os dois nunca mais se vissem e ele pagasse uma quantia de indenização – que foi doada para a caridade pela Amber.

            Enfim, galera. Em resumo, essa postagem teve como intenção usar o exemplo de Johnny Depp para explicar o porquê de não podermos fazer essa separação de artista e pessoa nestas circunstâncias. A verdade é que quando alguém promove essa divisão em favor de um nome, está dizendo nas entrelinhas que a reputação desse nome importa mais que qualquer trauma que a pessoa possa ter causado na vida de quem ela agrediu. Não podemos fechar os olhos frente a essas situações. Ao ser fã de alguém, você não pode deixar de ser relativo em relação aos vacilos dele, ou dela. Admirar seu trabalho é uma coisa, ignorar seus erros (e até mesmo crimes) é outra coisa; uma muito pior, por sinal.

Com carinho,
Ket e Jão