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domingo, 25 de fevereiro de 2018

Resenha – O Sol também é uma estrela | CONTÉM RELATIVOS SPOILERS

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O Sol também é uma estrela retrata a doçura e imensidão do acaso e como o poder das nossas escolhas, palavras, atitudes e passos no dia-a-dia definem o nosso destino. Com isso em mente, saibamos que o livro retrata um único dia que, para muitos, é só mais um dia de enfrentar filas, encarar o trabalho, pagar contas, tentar chegar a tempo na escola, pegar o ônibus – e torcer para que tenha um lugar vago, no lado da sombra, para se sentar -, e outras mais eventos frequentes no cotidiano de qualquer pessoa.



                A não ser que o tal dia seja o dia em que:
1)      você terá sua família deportada de volta para a Jamaica, afinal, você está há quase 10 anos ilegalmente nos EUA e, neste fucking dia, você fará o possível para que o seu destino seja mudado – de uma forma positiva, é claro. Enquanto você está desesperada, sua família talvez anseie pela volta ao país de origem. Mas quem sabe, o seu caso seja o 2), em que hoje é o dia da sua entrevista para a segunda maior faculdade dos Estados Unidos e seus pais, aqueles que são de uma primeira geração de imigrantes sul-coreanos, querem que você faça Medicina..., mas a sua paixão é escrever, seu sonho é tentar entender o que a poesia carrega e viver disso; além de ter passado a vida sob os holofotes do irmão mais velho babaca que conseguiu ser suspenso em Harvard e, por isso, querer determinada emancipação. Respectivamente, o caso 1) e o caso 2) retratam o dia da Natasha e do Daniel, nosso casal de protagonistas que explodem nesse incrível enredo. E eu e mais outros minis relatos trabalhados no livro, somos o caso 3), aqueles que assistem, envolvem-se indiretamente no rumo da história desses dois e ainda assim, conseguem ter uma história completa dentro de poucas páginas voltadas a eles.




Com a Natasha, conhecemos a moça forte, decidida e cética que busca o melhor que o EUA pode lhe oferecer – uma evidente estabilidade e um mar de oportunidades. Nós a conhecemos em um dia cheio, em que às 22h daquele dia, ela sairá dos EUA, para uma terra, que ela deveria ter como lar, mas a desconhece. Vimos uma Natasha que apresenta uma carranca meio amarga e mal-humorada, mas, na verdade, carrega muitos medos, inseguranças e mágoas. Não que a personagem se resuma a isso, mas é o que aquele momento da vida tem a oferecer sobre ela. Descobrimos que apesar da casca dura, a Natasha se mostra com uma personalidade única, sonhadora e acredita na própria capacidade. Sua revolta em voltar a Jamaica se resume unicamente no pressuposto de não ter as mesmas oportunidades que teria ao permanecer no EUA, pois não quer ter de viver o mesmo destino de sua família, a da pobreza. Carrega consigo o orgulho da sua cor, de suas raízes afro e encara com raiva quando resumem a sua cultura em mais um elemento comercial. Ela é o elemento realista, que até tende a ser pessimista, do enredo.

Já Daniel nos mostra uma outra perspectiva: diferente de Natasha, a família de Daniel está nos EUA de forma legal e detém relativa estabilidade financeira no país. Ele cresceu ao escanteio, sob a sombra do irmão mais velho que destila ódio e indiferença a tudo, todos e, principalmente, à própria família. Daniel cresceu diante da conduta de criação sul-coreana, rígidos e exigentes, mas ele carrega consigo desejos, sonhos e uma personalidade afável e delicada, diferente da exigida por seus pais ou como seu irmão se porta. Ele revela o otimismo dentro da narrativa, a esperança na liberdade de poder acreditar nos próprios sonhos e nutre consigo a paixão por acreditar no destino e nos acasos oferecidos pela vida. Eu meio que estranhei a atitude dele pseudo-perseguir a Natasha até determinado momento em que eles passam a seguir o mesmo caminho; mas se ela não crisou com isso até o final do livro, quem sou eu?


Sim, eu rabisco meus livros. Sim, eu escrevi um 15 ali para indicar qual era o século... e sim, eu desenho mega bem.
Assim como as duas perspectivas dos dois protagonistas elaboram a obra, vemos a terceira ali em cima citada que colabora para uma experiência de leitura sem igual: o ponto de vista do Destino. Tal detalhe da narrativa se mostra essencial já vemos o quanto a simplicidade que esse papel exerce é primordial para o fluxo da história. A partir de seu ponto de vista, encontramos as histórias de personagens que, em primeiro momento na história, não teriam espaço concedido para entendermos a sua essência. E para isso, um ou mais capítulos exclusivos são reservados para que eles possam nos mostrar a riqueza e importância de participarem tanto do livro, quanto do destino que eles ajudaram a criar entre Natasha e Daniel. Além desses personagens extras na história (sejam eles a segurança depressiva Irene, o advogado Jeremy e sua secretária, o motorista bêbado e etc), vemos também expressões sendo contextualizadas, sentimentos sendo desenvolvidos e atitudes explicadas ganham capítulos especiais para que possam ser interpretados dentro do sentido da história. O meu favorito é o da foto, que explica uma história sobre o cabelo e a relação dele com a Natasha.



Quanto a mais detalhes, podemos ver que a Natasha é muito observadora – e não é atoa que notou mais de vinte Fatos Observáveis -, e o Daniel é um amante de parênteses. Como ambos os pais dos dois jovens são imigrantes, e por mais duros que eles sejam (principalmente os pais de Daniel), tudo que eles desejam aos filhos têm uma razão. Eles viveram a pobreza, eles sabem o quanto ela é dura, e por isso, mais do que tudo na vida e pelo amor que eles sentem a sua família, não desejam nada daquilo para as suas crias e por isso tanta cobrança e posturas duvidosas.
O livro todo gira em torno do acaso, do destino, do poder que as nossas escolhas têm. A capa e o título são grandes sinônimos disso, a explosão representada na capaz faz referências às possibilidades e ao não planejado. Como a nossa vida gira ao redor de milhares de consequências – e nós sequer notamos isso. 

Nota: ⭐⭐⭐⭐1/2 


A autora com sua família 💛
E se você não achou motivos suficientes para ler esse livro, apenas veja essa imagem: